Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervorApenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também.
(Oswaldo Montenegro)
Nós e nossas metades, a dualidade de ser e de querer ser...
O ético e o anti-ético, o bem e o mal, o claro e o escuro
O caos e a ordem!


1 Comments:
E então, meu Deus disse-me:
-Tu, David, estás perdoado de teus pecados. Outorgo-lhe uma vida infinitamente feliz no Éden. Aceitas o convite?
-Quem sois vós que me concede tal graça? Não é mais do que um dos frutos da árvore de minha conciência, um romantismo, uma psudo-força bestiária para combater os meus maus momentos. Dou lhe a graça de não mais existir, pois minha vontade é mais forte que meus medos.
E então, veio meu Demônio e disse-me:
-Tu, David, serás bem vondo ante ao nosso portão. Seremos tua casa, tua família, tuas roupas e teus dons. Venha e seremos gratos eternamente.
-Mas quem tornou vocês tão poderosos assim? Vocês não são maos que o reflexo de meus sonhos tiranos, uma Legião para combater meus dons aprimorados. Julgo-lhes e condeno-lhes ao fracasso, e não mais existiram, pois não há espaço em meus sonhos para a derrota.
Então vaguei, e vaguei, até descobrir que eu era Deus e era o Demônio. O Bem e o Mal. A Vontade e a Razão. Descobri que não poderia ser apenas David, e com isso recriei meu Deus e meu Demônio pra que eles me fizesse lembrar que o antagonismo de minhas idéias faz parte de minha essência.(-Ou não, quem sabe?,eu ainda não me decidi disso).
David de Souza França
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