quinta-feira, setembro 23, 2004

Metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervorApenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também.

(Oswaldo Montenegro)


Nós e nossas metades, a dualidade de ser e de querer ser...
O ético e o anti-ético, o bem e o mal, o claro e o escuro
O caos e a ordem!

sexta-feira, setembro 17, 2004

POEMA EM LINHA RETA

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Eu? eu? eu?
Quem de nós atira-rá a primeira pedra!!!
Você? você? você?
Encare-se!

terça-feira, setembro 14, 2004

Lugar Nenhum

Titãs


Lugar Nenhum

Não sou brasileiro
Não sou estrangeiro
Não sou brasileiro
Não sou estrangeiro

Eu não sou de nenhum lugar
Sou de lugar nenhum
Sou de lugar nenhum

Não sou de São Paulo
Não sou japonês
Eu não sou carioca
Não sou português
Eu não sou de Brasília
Não sou do Brasil
Nenhuma pátria me pariu

Eu não tô nem aí
Eu não tô nem aqui
Eu não tô nem aí
Eu não tô nem aqui


levei uma surra hoje que me fez pensar nesta musica: de onde sou? onde estou? para onde vou?
O mundo gira e para no mesmo lugar, mas que lugar é este? de alguma forma eu cheguei até aqui mas como sair disto?
Fear is my name now!!

domingo, setembro 12, 2004

CUIDAR

O que se opoe ao descuido e ao descaso é o cuidado, cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro
Leonardo Boff
Tenho observado as pessoas em minha volta ultimamente e fico frustrado com as atitudes mesquinhas e pobres que vejo em suas relações. Relações de troca de interesses, do tipo:" o que você tem, que posso receber pela a minha amizade ou minha ajuda" Cadê o cuidado simples, e verdadeiro, o afeto sem necessidade de troca, o dar sem receber... OK! o mundo é capitalista mas não vamos ser capitalistas em nossas emoções também.
No feirado estive ajudando meu grupo escoteiro e algumas coisas la me chatearam muito, pouca gente trabalhando e outros tantos ganhando e exigindo méritos por algo que vagamente sabiam.
deprimente mas enfim cada um dá o que tem e o que acha digno!

sexta-feira, setembro 10, 2004

Canção do Amor Imprevisto

Canção do Amor Imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que faço por abafar.

Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinho!

Mario Quintana

quinta-feira, setembro 09, 2004

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não tem cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Alberto Caeiro

Penso que talves nos vejamos demais e deixamos passar por nós o mais simples e belo, e somente reparamos naquilo que de mais rascunho nos apresenta. O simples realmente é belo!

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